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    <body>### A import&#226;ncia do Di&#225;logo

Cada homem &#233; um advers&#225;rio em potencial, inclusive daqueles a quem ama, somente por meio do di&#225;logo somos salvos desta inimizade de uns contra os outros. O di&#225;logo &#233; para o amor o que o sangue &#233; para o corpo. Quando cessa a circula&#231;&#227;o do sangue, o corpo morre, quando cessa o di&#225;logo, o amor morre e nasce o ressentimento e o &#243;dio. Contudo, o di&#225;logo pode ressuscitar uma rela&#231;&#227;o morta. Efetivamente, este &#233; o milagre do di&#225;logo: pode originar uma rela&#231;&#227;o nova e tamb&#233;m pode dar nova vida a uma rela&#231;&#227;o que j&#225; morreu.

Existe somente uma condi&#231;&#227;o para que haja di&#225;logo: deve ser rec&#237;proco e proceder de ambos os lados; e os participantes devem persistir com intrepidez. A palavra do di&#225;logo pode ser pronunciada por um participante, mas evadida ou ignorada pelo outro, nesse caso a promessa pode n&#227;o se cumprir. Existem riscos ao entrar no di&#225;logo, mas quando duas pessoas se disp&#245;em e superam seu temor de faz&#234;-lo, pode desencadear-se o poder milagroso do di&#225;logo.

Se as exig&#234;ncias que fazemos aqui para o di&#225;logo s&#227;o causa de surpresa para o leitor, a raz&#227;o tal&#173;vez seja que o di&#225;logo tenha sido identificado demasiado e exclusivamente com as partes da conversa de uma obra de teatro. N&#243;s percebemos o di&#225;logo de forma distinta: como um s&#233;rio falar e escutar, como um dar e receber entre duas ou mais pessoas, onde o ser e a verdade de uma s&#227;o confrontados com o ser e a verdade da outra. O di&#225;logo, portanto, n&#227;o &#233; coisa c&#244;moda nem f&#225;cil de alcan&#231;ar, o que explica porque ele acontece t&#227;o raras vezes. E esta escassez de manifesta&#231;&#245;es explica a freq&#252;ente aus&#234;ncia de seus benef&#237;cios em nossa comunica&#231;&#227;o uns com os outros.

A comunica&#231;&#227;o significa vida ou morte para as rela&#231;&#245;es entre as pessoas. No momento do nasci&#173;mento o indiv&#237;duo converte-se em um ser pessoal, entra em contato significativo com seu pai e sua m&#227;e e com todos aqueles que cuidam dele no concreto de suas necessidades, e desse mesmo encontro nasce &#224; comunidade familiar.

H&#225; muitas ilustra&#231;&#245;es da import&#226;ncia do di&#225;logo. Um bebe transforma-se em pessoa em resposta ao encontro com sua fam&#237;lia. Desde o come&#231;o da vida do indiv&#237;duo &#233; a comunica&#231;&#227;o que garante a continuidade da mesma. Assim como o rec&#233;m-nascido depende do alimento e do cuidado dos demais, necessita tamb&#233;m da comunica&#231;&#227;o que est&#225; impl&#237;cita neles. A m&#227;e o alimenta e o banha, o acalenta e canta para ele, e por meio destas atividades o bebe recebe a mensagem de que ela lhe cuida e lhe quer bem. Esta mensagem tamb&#233;m significa para ele que &#233; amado e, portanto que &#233; am&#225;vel, aceito e, por conseguinte aceit&#225;vel. Do contr&#225;rio, se sua m&#227;e &#233; hostil e irasc&#237;vel e expressa seu ressentimento com neglig&#234;ncia e brutalidade, o bebe recebe a mensagem contr&#225;ria: que ela lhe considera um estorvo e que &#233; rejeitado e rejeit&#225;vel. No primeiro caso, a mensagem de amor e cuidado &#233; vivificadora e criativa; no segundo, a mensagem &#233; alienante e destrutiva. E isto &#233; certo tanto para a m&#227;e como para a crian&#231;a, porque ao amar e servir a seu filho a m&#227;e est&#225; se dando a si mesma, fazendo-se acess&#237;vel como pessoa. O ato de amar ao outro d&#225; vida ao amante assim como ao amado e pronunciar a palavra amor, &#233; ser amado tanto quanto amar.

Tamb&#233;m a crian&#231;a participa neste di&#225;logo, chora, sorri, move os bra&#231;os e esperneia e em outras formas n&#227;o verbais, formula suas perguntas e faz seus coment&#225;rios positivos ou negativos sobre sua vida. As respostas dadas por sua m&#227;e e por aqueles que a rodeiam, influir&#225; de forma decisiva em sua futura capacidade de comunica&#231;&#227;o. 
Se suas comunica&#231;&#245;es iniciais s&#227;o aceitas, n&#227;o necessariamente aprovadas, crescer&#225; em sua capacidade de falar; se n&#227;o o s&#227;o, se converter&#225; em uma pessoa inibida, ressentida e defensiva, o que por sua vez somente incrementar&#225; a comunica&#231;&#227;o destrutiva de sua m&#227;e. &#192;s vezes a comunica&#231;&#227;o entre eles faz a ambos tristes e indiferentes, e outras vezes alegres e vivazes.

A rela&#231;&#227;o entre um homem e uma mulher tamb&#233;m pode manifestar o quanto &#233; indispens&#225;vel o di&#225;logo. Al&#233;m de suas diferen&#231;as como homem e mulher, existem entre eles diferen&#231;as multifacetadas. Algum acontecimento em que ambos participaram e que os uniu de alguma forma, tal como o encontro dos olhos, ou o reconhecimento m&#250;tuo em uma discuss&#227;o da qual compartilham da mesma opini&#227;o ou atitude. Neste g&#234;nero de acontecimentos come&#231;a o di&#225;logo.

Assim cada um deles tenta buscar e explorar ao outro. &#201; importante saber quem &#233; o outro verdadeiramente; e por meio do di&#225;logo, que utiliza tanto a linguagem da rela&#231;&#227;o como a linguagem das palavras, procurar conhecer a vida atrav&#233;s do outro. Nasce o amor deste di&#225;logo, em que existe tanto a intimidade daquilo que estas duas pessoas compartilham em comum, como a dist&#226;ncia do mist&#233;rio insond&#225;vel de cada uma. 
O brotar desta consci&#234;ncia m&#250;tua na rela&#231;&#227;o revela uma distin&#231;&#227;o importante entre o amor "monol&#243;gico" e o &#8220;dial&#243;gico&#8221;. 
O amor monol&#243;gico goza sozinho, egocentricamente, dos sentimentos de uma rela&#231;&#227;o. O amante explora a amada pelo dividendo emocional que pode tirar, pelo contr&#225;rio, o amor dial&#243;gico &#233; altru&#237;sta. 
No amor dial&#243;gico o amante se volta para a amada n&#227;o para desfrut&#225;-la "egoisticamente", mas sim para servi-la, para conhec&#234;-la e por meio dela, ser. Reciprocamente, a amada busca o amante n&#227;o para desfrut&#225;-lo para si, mas para servi-lo, conhecer-lhe, e conhecendo-lhe e sendo por ele conhecida encontrar seu pr&#243;prio ser.

O matrim&#244;nio &#233; uma entrega &#250;ltima a este g&#234;nero de rela&#231;&#227;o humana, que expressa a seguinte cautela: para converter-se em pessoa um tem que participar no ser do outro, na rela&#231;&#227;o com ele, na qual o outro pode participar na realiza&#231;&#227;o do seu pr&#243;prio ser. O di&#225;logo &#233; buscado com afinco. E todo aspecto da rela&#231;&#227;o converte-se em um vinculo para o di&#225;logo; a atividade verbal, a vida juntos, o assumir responsabilidades, as rela&#231;&#245;es sexuais, as divers&#245;es.

Esta rela&#231;&#227;o continuar&#225; sendo uma rela&#231;&#227;o viva enquanto cada um se mantiver em comunica&#231;&#227;o com o outro. Cada um deve tentar falar sinceramente, o que venha do fundo de sua convic&#231;&#227;o, deve disciplinar seus sentimentos subjetivos, procurar pacientemente ser sempre consciente do companheiro como outra pessoa, e procurar manter-se sempre aberto ao significado do que ocorre na rela&#231;&#227;o. &#192; medida que qualquer um dos dois no di&#225;logo come&#231;a preocupar-se mais consigo mesmo do que com o outro, quando usa ao outro como uma coisa para qualquer fim, quando se esconde em uma atitude defensiva o matrim&#244;nio torna-se monol&#243;gico e rompe-se. 

Quando isto ocorre, um ou ambos os c&#244;njuges podem requerer indignamente que o outro se arrependa e mude em prol de uma rela&#231;&#227;o remendada. A cura de um matrim&#244;nio ou de qualquer outra rela&#231;&#227;o n&#227;o pode ocorrer quando os participantes se consideram como indiv&#237;duos separados, com o direito de requerer os servi&#231;os do outro. 
Ocorrer&#225; somente quando ambos s&#227;o capazes de voltar-se diante do outro, aceitar o risco de entregar-se em amor, e sondar a si mesmo na busca de qualquer mudan&#231;a que seja necess&#225;ria. Uma esposa, por exemplo, pode fazer este g&#234;nero de entrega dadivosa, e, contudo fracassar, porque seu marido n&#227;o aceita a d&#225;diva e entrega-se a si mesmo em reciprocidade, mas se ele quiser, ent&#227;o ocorrer&#225; o milagre e a rela&#231;&#227;o morta voltar&#225; a despertar para uma nova vida.

A rela&#231;&#227;o entre pais e filhos tamb&#233;m exige a pr&#225;tica do principio de di&#225;logo. Que dif&#237;cil &#233; para os pais respeitarem e confiarem no car&#225;ter &#250;nico e nas capacidades de seus filhos! Entretanto, os pais devem decidir e atuar por seus filhos at&#233; que chegue o tempo em que eles sejam capazes de decidir e atuar por si mesmos, os filhos sempre devem ter a experi&#234;ncia de ser tratados como pessoas livres em uma rela&#231;&#227;o de confian&#231;a e responsabilidade. 
A necessidade desta confian&#231;a aumenta &#224; medida que os filhos crescem e torna-se aguda na adolesc&#234;ncia, quando ocorre a transi&#231;&#227;o da inf&#226;ncia para a idade adulta. Ent&#227;o &#233; imperativo que se respeite a liberdade das pessoas jovens, mas &#233; igualmente imperativo, que tamb&#233;m elas se encontrem com pessoas de convic&#231;&#227;o que, ao mesmo tempo, respeitem suas liberdades. Sem este g&#234;nero de rela&#231;&#227;o o indiv&#237;duo simplesmente foge da vida, torna-se passivo e se fecha dentro de si mesmo; ou talvez se converta em um combatente cuja atividade se perder&#225; na aridez de sua agressividade. 

A import&#226;ncia do di&#225;logo para esta encruzilhada do crescimento fundamenta-se no fato de que se expressa respeito m&#250;tuo, de maneira que a juventude n&#227;o tenha necessidade nem de reprimir a criatividade nem de arroj&#225;-la; e a idade adulta e n&#227;o necessite dominar, nem se separar da juventude com frustra&#231;&#227;o. Nos casos em que o jovem se retirou da vida ou est&#225; em um combate hostil com ela, como no caso da delinq&#252;&#234;ncia, o di&#225;logo pode realizar o milagre de devolver o jovem a uma rela&#231;&#227;o criadora com a vida.

O di&#225;logo &#233; indispens&#225;vel tamb&#233;m na busca da verdade; e tamb&#233;m aqui opera milagres. Infeliz&#173;mente, muitas pessoas sustentam e proclamam que o que eles cr&#234;em &#233; verdade, de uma forma teimosa ou defensiva. As pessoas religiosas, por exemplo, &#224;s vezes falam da verdade que professam de forma monol&#243;gica, isto &#233;, a sustentam exclusiva e interiormente como se n&#227;o houvesse rela&#231;&#227;o poss&#237;vel entre o que eles cr&#234;em e o que os outros cr&#234;em, apesar dos sinais de que as verdades sustentadas separadamente com freq&#252;&#234;ncia s&#227;o complementares. 
O pensador monol&#243;gico corre o risco do preconceito, intoler&#226;ncia, estreiteza de vis&#227;o daqueles que diferem dele. 
O pensador dial&#243;gico, por outro lado, est&#225; desejoso de falar de suas convic&#231;&#245;es aos que sustentam convic&#231;&#245;es distintas, das suas com genu&#237;no interesse nelas e com um sentido das possibilidades que existe entre elas.

Onde h&#225; di&#225;logo, h&#225; comunica&#231;&#227;o, mas as tentativas de comunica&#231;&#227;o com freq&#252;&#234;ncia falham. Por qu&#234;? Quais s&#227;o as barreiras &#224; comunica&#231;&#227;o, que evitam que apare&#231;a o di&#225;logo, e que o di&#225;logo deve derrubar? Estas s&#227;o perguntas que devemos nos fazer.

### As barreiras na Comunica&#231;&#227;o

Toda a esfera da vida humana proporciona exemplos de frustra&#231;&#245;es que os seres humanos experimentam em suas tentativas de comunicar-se. As ansiedades que os pais t&#234;m sobre seus filhos com freq&#252;&#234;ncia os impedem de ver os filhos tal como s&#227;o, escutar-lhes e responder-lhes. As preocupa&#231;&#245;es das crian&#231;as para com os adultos em geral e por seus pais em particular lhes dificultam escutar e responder a seus pais. 
Uma m&#227;e disse: "Nunca sinto que meus filhos escutam o que realmente estou lhes dizendo. Seus ouvidos parecem estar influenciados pelo que eles esperam que eu diga".
As rela&#231;&#245;es maritais revelam o mesmo sentido de frustra&#231;&#227;o. Maridos e esposas perdem o poder de compartilhar o significado de suas vidas. O ac&#250;mulo de frustra&#231;&#245;es e ressentimentos produz aliena&#231;&#227;o que lhes impossibilita comunicar-se em qualquer idioma, seja o das palavras ou o da a&#231;&#227;o. &#192;s vezes parece que sua capacidade de assumir responsabilidade est&#225; bloqueada pela hist&#243;ria dolorosa de sua rela&#231;&#227;o. "Nossa &#250;nica comunica&#231;&#227;o", disse um marido, "est&#225; no n&#237;vel das superficialidades". Uma esposa disse, com voz amargurada: "Nos revolvemos em trivialidades".

Devemos nos formular a pergunta: Por que a comunica&#231;&#227;o t&#227;o frequentemente torna-se frustra&#173;da? Para responder a esta pergunta examinemos primeiro a comunica&#231;&#227;o entre dois indiv&#237;duos. Para nos ajudar a compreender as barreiras que tornam dif&#237;cil a conquista de uma boa comunica&#231;&#227;o, empregaremos o Diagrama abaixo.

&lt;table class='table'&gt;
&lt;tr&gt;
&lt;th&gt;Tipos de Interlocutores&lt;/th&gt;
&lt;th&gt;Barreiras de Significado&lt;/th&gt;
&lt;th&gt;Tipos de Interlocutores&lt;/th&gt;
&lt;/tr&gt;
&lt;tr&gt;
&lt;td&gt;Pais&lt;/td&gt;
&lt;td&gt;&lt;/td&gt;
&lt;td&gt;Filhos&lt;/td&gt;
&lt;/tr&gt;
&lt;tr&gt;
&lt;td&gt;Esposas&lt;/td&gt;
&lt;td&gt;Linguagens&lt;/td&gt;
&lt;td&gt;Maridos&lt;/td&gt;
&lt;/tr&gt;
&lt;tr&gt;
&lt;td&gt;Alunos&lt;/td&gt;
&lt;td&gt;&lt;/td&gt;
&lt;td&gt;Professores&lt;/td&gt;
&lt;/tr&gt;
&lt;tr&gt;
&lt;td&gt;Vendedores&lt;/td&gt;
&lt;td&gt;Imagens&lt;/td&gt;
&lt;td&gt;Clientes&lt;/td&gt;
&lt;/tr&gt;
&lt;tr&gt;
&lt;td&gt;Congrega&#231;&#227;o&lt;/td&gt;
&lt;td&gt;&lt;/td&gt;
&lt;td&gt;Pregador&lt;/td&gt;
&lt;/tr&gt;
&lt;tr&gt;
&lt;td&gt;Trabalho&lt;/td&gt;
&lt;td&gt;Ansiedades&lt;/td&gt;
&lt;td&gt;Diretoria&lt;/td&gt;
&lt;/tr&gt;
&lt;tr&gt;
&lt;td&gt;Brancos&lt;/td&gt;
&lt;td&gt;&lt;/td&gt;
&lt;td&gt;Negros&lt;/td&gt;
&lt;/tr&gt;
&lt;tr&gt;
&lt;td&gt;Cat&#243;licos - Romanos&lt;/td&gt;
&lt;td&gt;Defesa&lt;/td&gt;
&lt;td&gt;Protestantes&lt;/td&gt;
&lt;/tr&gt;
&lt;tr&gt;
&lt;td&gt;Igreja&lt;/td&gt;
&lt;td&gt;Des&#237;gnios&lt;/td&gt;
&lt;td&gt;Mundo&lt;/td&gt;
&lt;/tr&gt;
&lt;/table&gt;

Quando nos propomos a comunicarmos com o outro, nos dirigimos a ele ou a ela com a expectativa de que responder&#225;. Esperamos que os significados que tentamos comunicar ativar&#227;o certos significados na outra pessoa, impulsionar&#227;o a responder, e que cada um continuar&#225; em um interc&#226;mbio de significados m&#250;tuos e rec&#237;procos at&#233; que se tenha alcan&#231;ado algum objetivo. 

Qualquer participante encaixado em qualquer uma das colunas exteriores do Diagrama acima pode iniciar a conversa&#231;&#227;o. Ambos os interlocutores, contudo contribuir&#227;o para o di&#225;logo com significados que s&#227;o tanto um recurso como uma barreira para a comunica&#231;&#227;o, pois podemos afirmar sem perigo de errar que as pessoas sempre concedem significados a todo encontro.

&#192;s vezes n&#227;o nos damos conta disto e n&#227;o reconhecemos o significado que trazem; ou talvez os significados sejam inaceit&#225;veis, de modo que consideremos necess&#225;rio rejeit&#225;-los. &#192;s vezes dizemos que uma situa&#231;&#227;o n&#227;o significa nada ou que uma pessoa carece de sentido. Fundamentalmente, estas observa&#231;&#245;es s&#227;o sempre err&#244;neas. Nunca existe uma situa&#231;&#227;o carente de significado, e nossa tarefa n&#227;o &#233; descart&#225;-la como absurda, mas sim abrir nossos olhos e ouvidos buscando o significado que est&#225; por baixo daquilo que aparentemente n&#227;o tem significado.

Por exemplo: Uma mulher disse a seu marido: "Tua forma de vida n&#227;o tem sentido". Em uma conversa particular o homem tamb&#233;m afirmou que a vida de sua esposa n&#227;o fazia sentido. Questionando o marido por que trabalhava t&#227;o duro e estava t&#227;o ocupado em tantas atividades na comunidade, ele respondeu: "Se n&#227;o fizesse o que fa&#231;o, perderia o respeito por mim mesmo&#8221;. Sua forma de vida, longe de carecer de sentido, era precisamente seu modo de encontrar dignidade. Ao afirmar o significado de seu comportamento abrem-se possibilidades criativas de continuar a conversa&#231;&#227;o com ele. Por outro lado, se tiv&#233;ssemos conclu&#237;do de que sua vida n&#227;o tinha sentido, a comunica&#231;&#227;o ulterior com ele haveria oferecido pouca esperan&#231;a de ser fecunda.

Agora estamos prontos para definir a comunica&#231;&#227;o. A comunica&#231;&#227;o ocorre sempre que existe um encontro de significados entre duas ou mais pessoas. N&#227;o houve nenhum encontro de significados entre o ocupad&#237;ssimo marido e a esposa. Ao dizer-lhe que n&#227;o via nenhum sentido no que ele es&#173;tava fazendo, ela n&#227;o percebeu o significado de suas atividades. Ele por sua vez, por sentir-se rejeitado pela esposa afastou-se dela de maneira que n&#227;o podia responder &#224; preocupa&#231;&#227;o dela nem expressar a sua pr&#243;pria. Ter&#237;amos ent&#227;o uma t&#237;pica ruptura da comunica&#231;&#227;o com o habitual xeque-mate cont&#237;nuo nas rela&#231;&#245;es. A causa foi o fracasso de ambas as partes em abrir-se aos significados da "outra parte". A mensagem de amor da esposa, que carregava sua preocupa&#231;&#227;o, chocou-se contra uma barreira de significado e ao haver ca&#237;do no vazio, voltou a ela frustrada em vez de alcan&#231;ar a seu o marido como ela havia esperado. E a mensagem do marido de preocupa&#231;&#227;o por si mesmo, expressado por sua maneira de viver, tamb&#233;m se chocou com uma barreira de significado, de maneira que caindo no vazio, voltou a ele como fracasso em vez de alcan&#231;ar a sua esposa e conseq&#252;entemente sua compreens&#227;o. Cada um deles est&#225; agora separado do outro por um muro, e todo interc&#226;mbio cruzado entre eles &#233; superficial e incapaz de iluminar as profundas preocupa&#231;&#245;es reais de cada um.

Uma barreira para a comunica&#231;&#227;o &#233; algo que impede que os significados se encontrem. As barreiras aos significados existem entre as pessoas o que faz da comunica&#231;&#227;o uma quest&#227;o muito mais dif&#237;cil do que a maioria das pessoas parece crer. E falso supor que se uma pessoa pode falar, pode tamb&#233;m se comunicar. Precisamente porque grande parte de nossa educa&#231;&#227;o induz erroneamente as pessoas a crerem que a comunica&#231;&#227;o &#233; mais f&#225;cil do que na realidade &#233;, elas se desanimam e abandonam o empenho quando topam com dificuldades. Exatamente porque n&#227;o compreendem a natureza do problema, n&#227;o sabem o que fazer. 

O estranho n&#227;o &#233; que a comunica&#231;&#227;o seja t&#227;o dif&#237;cil, mas sim que seu fracasso ocorra t&#227;o frequentemente. A educa&#231;&#227;o, a forma&#231;&#227;o de lideres e o preparo para o casamento e a paternidade, deveriam ao menos dar &#224;s pessoas uma compreens&#227;o da natureza da comunica&#231;&#227;o, como ocorre e como serem respons&#225;veis em rela&#231;&#227;o a ela.

Todo o processo de educa&#231;&#227;o ou forma&#231;&#227;o que envie os seres humanos &#224; tarefa da comunica&#231;&#227;o sem uma compreens&#227;o rudimentar dela ou com expectativas falsas sobre a mesma, &#233; cruel e irrespons&#225;vel e serve somente para conden&#225;-los a ca&#237;rem desiludidos e desanimados mais tarde. J&#225; que na comunica&#231;&#227;o existe mais do que aparece na superf&#237;cie e em seu caminho se interp&#245;em mais obst&#225;culos do que n&#243;s gostar&#237;amos de reconhecer, n&#227;o obstante, as palavras n&#227;o t&#234;m porque serem pronunciadas sem motivos. As barreiras que se interp&#245;em &#224; comunica&#231;&#227;o podem ser derrubadas. Pode ocorrer o encontro de significados, e por meio de tal encontro podem estabelecer-se rela&#231;&#245;es, ainda que se tenha que ressuscitar os mortos.

O terreno primordial do qual surgem &#224;s barreiras, &#233; a necessidade e a preocupa&#231;&#227;o que cada indiv&#237;duo sente por seu pr&#243;prio ser, em outras palavras, as barreiras surgem da necessidade ontol&#243;gica do ser humano. Nossas ang&#250;stias Fazem que tentemos encontrar afirma&#231;&#245;es de nosso ser: afirma&#231;&#245;es que podem realmente amea&#231;ar o ser de outros. Nossa necessidade de ser, nos impulsiona a viver vidas de autojustificac&#227;o que podem causar-nos inquietude e at&#233; inimizade com nossos irm&#227;os. Semelhante preocupa&#231;&#227;o ontol&#243;gica, com todas as ang&#250;stias que se amontoam ao seu redor, torna dif&#237;cil tanto o falar como o escutar aberta e sinceramente. Essa barreira interposta na comunica&#231;&#227;o est&#225; edificada na exist&#234;ncia humana e ergue-se entre os homens em cada um dos casos. N&#227;o existe nenhuma exce&#231;&#227;o. Inclusive aquelas pessoas que s&#227;o atra&#237;das maravilhosamente umas as outras e que encontram a comunica&#231;&#227;o como algo singular e emocionante, experimentam d&#250;vidas, reservas e ansiedades que lhes impedem de falar e n&#227;o lhes permitem escutar ou lhes levam a escutar incorretamente. Tudo isso se toma evidente nas observa&#231;&#245;es, qualifica&#231;&#245;es, distor&#231;&#245;es e disfarces defensivos do significado que empregamos em nosso temor em sermos compreendidos, da mesma forma que em nosso temor em sermos mal entendidos.

Temos que lembrar, contudo, que nossa preocupa&#231;&#227;o ontol&#243;gica manifesta-se n&#227;o somente em forma de defesas e ansiedades que nos separam e criam barreiras &#224; comunica&#231;&#227;o, mas tamb&#233;m que se expressa no anelo por unidade de uns com os outros. Daqui surge o impulso de falar e de ser entendido. Precisamente por ele, temos que ser conhecidos e conhecer, ser amados e amar.

Toda a comunica&#231;&#227;o vai acompanhada desta preocupa&#231;&#227;o ontol&#243;gica - esta preocupa&#231;&#227;o por nosso ser - e est&#225; condicionada por ela. Para ocorrer uma verdadeira comunica&#231;&#227;o entre pessoa e pessoa, cada um deve aceitar a pr&#243;pria necessidade de afirma&#231;&#227;o e tamb&#233;m a necessidade da outra. Seu falar e escutar deve aceitar, como parte de seu conte&#250;do e responsabilidade, n&#227;o somente esta ang&#250;stia ontol&#243;gica, mas tamb&#233;m todas as diversas manifesta&#231;&#245;es dela. 

A linguagem &#233; o processo de conhecer e ser conhecido por meio das palavras, e se deduz que um emprego apto da linguagem &#233; essencial para uma vida efetiva. O pensamento salta de uma mente a outra por meio das palavras. Por tr&#225;s das palavras, contudo, est&#225; toda a vida de rela&#231;&#227;o da qual nascem os significados e para a qual selecionam-se palavras identificantes. Pronunciar uma palavra &#233; um ato que alude e descreve um acontecimento que j&#225; aconteceu ou vai acontecer. Toda a palavra, por conseguinte depende, para a sua exist&#234;ncia e significado, da vida que foi vivida; e toda palavra falada comporta implicitamente uma responsab&#237;lidad&amp;pela vida que tem que ser vivida.

Mas a linguagem n&#227;o &#233; exata e precisa. A mesma palavra, por exemplo, pode ter um significado diferente para distintas pessoas, mesmo quando por seu vasto emprego tenha fixado seu significado. Devem se fazer sempre concess&#245;es &#224;s amplas mudan&#231;as de matizes e varia&#231;&#245;es nascidas das associa&#231;&#245;es e experi&#234;ncias individuais. A palavra "pai", por exemplo, tem um significado fixo, mas cada pessoa d&#225; a ela seus pr&#243;prios significados especiais, que podem variar tanto que seu emprego fixado n&#227;o seja nenhuma garantia de comunica&#231;&#227;o. Uma palavra significa o que o locutor pretende que signifique, mas podem diferir as equival&#234;ncias pessoais para o ouvinte. Falamos que esta diferen&#231;a surge primariamente das associa&#231;&#245;es emocionais que se acumularam ao redor da palavra como resultado das experi&#234;ncias particulares do ouvinte. 

Os significados cognitivos da comunica&#231;&#227;o podem ser bloqueados pelas associa&#231;&#245;es emocionais ativadas por eles. Aquele que fala pode ter planejado uma coisa, mas a distorce tanto pelas palavras que escolhe como pelo tom de voz que emprega; e pode ativar respostas emocionais compar&#225;veis no ouvinte.

1 Pe 4.11 diz: &#8220;Se algu&#233;m fala, fa&#231;a-o como quem transmite a palavra de Deus. Se algu&#233;m serve, fa&#231;a-o com a for&#231;a que Deus prov&#234;, de forma que em todas as coisas Deus seja glorificado mediante Jesus Cristo, a quem sejam a gl&#243;ria e o poder para todo o sempre. Am&#233;m&#8221;.

**Preparado por Jo&#227;o Manoel Alves**
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    <title>O Milagre Do Di&#225;logo ou da Comunica&#231;&#227;o</title>
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